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03/09/2015

Posições para carregar bebês: as diretrizes da Dança Materna


A Dança Materna tem no carregamento do bebê, com sling ou outro acessório, um de seus pilares  de atuação. O movimento simbiótico de corpos de mães e filhos são parte integrante dessa experiência de atendimento integral para os momentos de gravidez (que dispensa qualquer pano!), pós parto imediato e vida com filhos até o fim da fase bebê (que consideramos até 3 anos, mais ou menos).

Portanto, estamos sempre atentas às recomendações, pesquisas e novidades na área, mas sem nunca perder de vista sua qualidade ancestral, natural e humana. E a especificidade de cada binômio mãe e bebê, de modo a favorecer sempre, sempre, que estejam juntos, saudáveis, bem atendidos e confortáveis.

Virado para o Mundo


Um exemplo de nosso discurso transformado em prática, celebrando a possibilidade de acolhimento de cada binômio individualmente, bem como a relação entre teoria e prática é o carregamento semi-frontal de bebês.

Os dois bebês da esquerda, sentados no carregador com as costas plenamente apoiadas metade no torso da mãe, metade no tecido. O bebê da direita, em posição mais lateral aproveita a situação natural do colo, amparado pelo braço da mãe.


"Bebês virados para frente no carregador, com as pernas soltas, realmente não estão em uma boa posição. Carregá-los de maneira que vejam o mundo, no entanto, com as pernas cruzadas ou agrupadas, pode ser uma ótima opção, apesar de gerar tanta controvérsia",  explica Tatiana Tardioli, criadora da Dança Materna, bailarina, estudiosa do corpo, do movimento e do desenvolvimento dos bebês. "Recomendo também que o bebê seja carregado hora para o lado esquerdo e hora para o direito, o que faz do carregamento uma experiência confortável e saudável para a mãe e  traz para o bebê a possibilidade de vivenciar de maneira equilibrada o apoio no corpo da mãe e o olhar para o mundo,  pelos dois lados, o que é amplamente importante para seu desenvolvimento" - completa.

Nas aulas da Dança Materna, por muitas vezes vemos bebês em carregamento frontal, como sentados no carregador. Tati explica que essa posição é recomendada para bebês com sustentação ativa do pescoço, que acontece geralmente à partir dos quatro meses, com o devido apoio no corpo das mães. E por que virá-los para frente?

"Não podemos falar genericamente de bebês sem levar em conta em que momento do seu desenvolvimento eles estão. Esta é uma fase onde a maioria deles começa a demonstrar uma maior curiosidade pelo mundo. Pode fazer sentido por alguns minutos que o bebê esteja virado para frente, vivendo as mesmas experiências sensoriais que a mãe vive, desde que ele esteja aconchegado como na foto acima, preferencialmente, com o tronco numa leve torção, com metade das costas apoiadas no corpo da mãe, o que favorece a posição de enrolamento da coluna, que é extremamente benéfica para os bebês por um bom tempo em seu começo de vida."

Um ponto a ser discutido quando falamos em carregamento frontal é o estímulo. Essa palavra caiu no senso comum e não podemos generalizá-la. Uma tela de computador, celular ou tablet, comprovadamente são péssimos estímulos para os bebês, pelo menos até os dois anos de idade. Ser carregado num ambiente potencialmente tenso e assustador também é inadequado. No entanto, nas aulas da Dança Materna, ou caminhando num parque, num ambiente harmonioso o bebê terá contato com estímulos adequados,  que favorecerão o desenvolvimento dos seus sentidos e o encontro visual e tátil com outros bebês, o que lhe fará sentir, apoiado pelos braços amorosos de sua mãe, que o mundo é bom e ele pode experimentá-lo com segurança.

Contato e carinho numa aula da Dança Materna em 2009. Foto: Gustavo Ferri

É preciso pontuar que as controvérsias sobre o carregar bebês virados para frente estão fundamentadas no desenvolvimento ósseo da criança. Estudos indicam que não é ergonomicamente correto projetá-los para fora do corpo da mãe, com as pernas para fora - e nisso estamos plenamente de acordo. Essa posição (abaixo, à esquerda) poderia incidir negativamente na cervical e quadris do bebê, uma vez que seu ponto de equilíbrio é alterado, e a sustentação de seu peso fica na virilha.
Abaixo, à direita, vemos o bebê com as pernas para fora na mochilinha, que é um carregador que permite um ângulo saudável para a articulação do quadril, diferente do canguru, onde as pernas ficam soltas, pendendo para baixo. Recomendamos essa forma de carregar, como do bebê à direita) à partir dos 6 meses, como explicaremos mais adiante.

Nessa comparação é nítido que a recomendação de carregar o bebê virado para mãe oferece mais suporte para pescoço e coluna - do ponto de vista ergonômico, isso é indiscutível.  Fonte da imagem: The Eco Friendly Family

Posição de Colo Natural


Na foto abaixo, o bebê está sendo carregado numa posição recomendada para recém-nascidos. Acordados, eles aceitam esta posição até aproximadamente quatro meses, variando de bebê para bebê. Ela favorece o bebê por ser uma posição que o mantém em enrolamento. O importante desta forma de carregar é que a cabeça esteja mais alta que o bumbum, devidamente apoiada e que as vias aéreas estejam desobstruídas para que ele respire livremente. É uma posição muito parecida com o modo como carregamos o bebê no colo instintivamente. No sling, com uma certa adaptação, é ótima para amamentar. Falaremos disso em outro texto.

Aula da Dança Materna na Casa do Brincar, em São Paulo. Foto: Gustavo Ferri

Para Denise de Castro, fisioterapeuta, terapeuta alfacorporal e criadora do método CorpoIntenção, o bebê quando nasce tem que se haver com três importantes presenças que irão acompanhá-lo ao longo da vida: os vínculos, a aplicação de força sobre si e a ação da gravidade.


“Dentro do útero, o vínculo era pleno, o movimento mínimo e a ação da gravidade quase inexistente. Ao nascer, o bebê inicia seu caminho como agente e sujeito passando a exercer ações sobre si mesmo, geradoras de gestos e movimentos."


Denise pontua que relacionar-se com a gravidade é um processo de aprendizagem para o bebê:
"Inicialmente, existe uma relação com a ação da gravidade de mais pressão, exercitando, de modo involuntário, respostas corporais que seguem alterando os pontos de pressão no corpo próprio. Porém, se a pressão for constante e estática, essa condição de ajustar a pressão pode ficar comprometida pela impossibilidade do bebê, de modo voluntário, de sustentar essa ação."

Dentro das diretrizes da Dança Materna, praticamos o carregamento de bebês baseado em abordagens completas, como as de Denise, que sugerem que o posicionamento dos bebês no carregador, no colo, nas superfícies, precisa passar pela reflexão de que não estamos olhando apenas para um organismo ósseo-muscular. "É interessante refletir sobre essa composição entre corpo “molinho”, volume das vísceras e pressão da ação da gravidade. Pensar, somente, no funcionamento da camada musculoesquelética desconsidera a complexidade de um corpo vivo." 
À partir dessas observações, podemos pensar o melhor uso do sling sempre na relação com o processo de desenvolvimento neuropsicomotor do bebê. Até os 4 meses o bebê fica bem com a cabeça um pouco mais alta e o tronco enrolado e mais deitado, desse modo a pressão da gravidade encontra uma área mais extensa do corpo do bebê, aliviando a pressão excessiva em uma região menor. Estado de pressão este, que ocorre quando o bebê está posicionado mais na vertical. "É necessário lembrar-se de alternar os lados do corpo do bebê que encostam no corpo da mãe, promovendo estímulos sensoriais e ações musculoesqueléticos diversas a partir do contato, da posição, da escuta."


Pernas para Dentro e Pernas para Fora


"Pensando na posição mais vertical, aumentar os pontos de apoio por meio das pernas em posição conhecida dentro do útero, e, garantir um leve enrolamento no corpo do bebê pode auxiliar no desenvolvimento de um agente-sujeito que pode se conectar consigo e com o Outro", diz Denise.

Plenamente de acordo com essa colocação, recomendamos que o carregamento vertical de bebês até 6 meses seja com as perninhas para dentro, incluindo o bebê como um todo dentro do carregador, criando uma experiência de pleno acolhimento dentro do tecido, como no útero, sem interrupção, e com mais pontos de apoio, de maneira que se aninhe no corpo da mãe inteiramente.

À partir de 6 meses, os bebês já tem uma condição ainda maior de sustentação da cabeça e da coluna, de modo que podemos diminuir a área de apoio e colocar as perninhas para fora, mantendo os joelhos mais altos do que o bumbum.


À esquerda, bebê menor de 6m com pernas para dentro, à direita, bebê maior de 6m com pernas para fora. Aula da Dança Materna na Casa Moara, 2015. Foto: Gustavo Ferri

Para saber mais sobre isso recomendamos o texto Pernas para dentro, Pernas para fora: sobre slingar recém-nascidos

Carregando Bebês nas Costas


Outra posição que podemos abordar do ponto de vista da Dança Materna, insistindo em observar as evidências e contemplar as questões específicas de cada binômio, é o carregamento nas costas. Existe um incentivo às amarrações nas costas, em especial dentro das comunidades de babywearing, com a aproximação às técnicas andinas e latino americanas. De fato, para comunidades ancestrais ou contemporâneas onde as mulheres precisam desenvolver trabalhos braçais, o carregamento nas costas é uma receita de sucesso. O bebê permanece com o cuidador, que pode exercer suas atividades diárias.

"Eu acredito que isso está inserido na divisão social do trabalho daquela comunidade. Uma mulher que carrega seu bebê nas costas precisaria de liberdade nas mãos para desenvolver as tarefas que cabem à ela", diz Tati Tardioli.


Fonte da Imagem: Ebay


Mas relativizando para a realidade de muitas mães alunas da Dança Materna, não recomendamos esse tipo de carregamento, como opção pró-forma para qualquer mãe e bebê. Isso porque entendemos que o carregamento nas costas - especialmente para mulheres que não vão subir uma montanha à pé ou ceifar a colheita de milho - deixa à desejar se comparado com o carregamento frontal.

"Nas aulas converso muito com as mães sobre este assunto. Uma vez, Akiko, mãe do Joaquim, uma aluna sábia e sensível me despertou para essa reflexão, comentando que os bebês são gerados na frente do nosso corpo. Nossos braços se projetam para a frente, para segurá-los, abraçá-los e protegê-los. Eu não posso ignorar esse dado como algo significativo na hora de escolher como amarrar meu bebê."  - diz Tatiana.

Para o uso no dia-a-dia, com bebês mais velhos e crianças, que continuam sendo carregados em algumas situações, o carregamento nas costas pode ser uma boa opção, revezada com o carregamento à frente, criando uma situação de compensação interessante para a coluna e ombros de quem o carrega.

Tatiana, carregando Gil aos três anos